Ora, deixe de ser sofisticado
Em defesa do afeto e da batata frita vagabunda do Shake Shack
Conheci o Shake Shack em algum momento dos anos 2010, numa viagem a trabalho para Nova York. Voltei a São Paulo desesperado para encontrar lugares que servissem hambúrgueres smash. Não achei, tive que fazer em casa. Hoje, difícil é encontrar lugares em São Paulo que não sirvam hambúrgueres smash.
Gosto muito da história da batata frita do Shake Shack. Está no livro deles. O Shake Shack sempre foi bem avaliado pela crítica, mas muitos especialistas criticavam sua batata frita. É daquelas do tipo crinkle (ondulada), congelada. Entendidos a consideram medíocre, abaixo do bom nível dos hambúrgueres da rede fast casual.
O Shake Shack iniciou então uma operação complexa para substituí-las. Passaram meses pesquisando variedades de batata, visitando produtores, fazendo testes, afinando a logística para que todas as unidades passassem a servir as batatas fritas new and improved: frescas, cortadas à mão. Os críticos provaram e adoraram, claro — imagina dar a um crítico o prazer de estar certo.
E as pessoas normais? Odiaram. Exigiram a volta das batatas crinkle, congeladas, medíocres, perfeitas. O Shake Shack obedeceu. Não cheguei a provar as batatas ditas superiores que substituíram temporariamente as originais, mas suspeito que preferiria as antigas. Nada, absolutamente nada, supera o afeto.
Detesto consensos da crítica. Particularmente um: o de que Be Here Now, do Oasis, é ruim. Foi o disco que me fez virar roqueiro quando eu era adolescente. Que me importa se a Pitchfork acha que All Around the World é longa demais, ou que o disco é pretensioso, ou sei lá o quê. Marcou a minha vida. Nada supera o afeto. (Outro consenso da crítica que detesto: o de que a primeira temporada do The Office americano é ruim.)
A história da batata do Shake Shack me faz lembrar um episódio engraçado da história de Chega de Saudade, a música (está no livro homônimo do Ruy Castro). Vinicius de Moraes mostrou a letra à sua então mulher, Lila, que achou boba a rima de “peixinhos” com “beijinhos”. Diferentemente do Shake Shack, Vinicius não cedeu à crítica. Respondeu: “Ora, deixe de ser sofisticada.”



A primeira temporada de The Office é a melhor
Uma coisa que me irrita em critica no geral, mas que no ambiente da gastronomica é prolifeco: quem escreve gosta mais de escrever sobre comida do que realmente comer