Saudades do anacrônico
Tal qual Arnaldo Jabor, eu quero o lápis na orelha do quitandeiro
Twitteiros pré-históricos adoravam citar, em tom de galhofa, este trecho de um texto de 2009 do Arnaldo Jabor:
Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.
Eu, mais do que o passado, quero o anacrônico.
Um dos meus restaurantes preferidos era o La Farina, uma cantina no centro de São Paulo que fechou em 2023: pratos fartos, ambiente antiquado, garçons sexagenários piadistas, cardápio desbotado de sobremesas industrializadas, uma vinagrete com tanta cebola e tão pouco tomate que eu e meus colegas de trabalho a apelidaram de cebolete. Um lugar perfeitamente anacrônico, um lugar perfeito.
Uma cantina que ainda resiste e que tive o prazer de conhecer há pouco tempo é a La Peninsola, no Bixiga. Foi fundada em 1987 e até agora não decidiu se se chama La Peninsola ou La Penisola. Que detalhe delicioso.
Lembrei do La Farina e do La Peni(n)sola ao ver um vídeo extremamente xarope no Threads, fazendo pouco caso da cozinha ítalo-brasileira.
Claro que eu gosto de poder ir a um restaurante em São Paulo e comer uma carbonara “autêntica” com guanciale, pecorino romano e macarrão verdadeiramente al dente. (Aliás, não gosto. É sempre muito caro. Prefiro comprar os ingredientes e fazer em casa.)
É moderno, é contemporâneo, tá legal, eu aceito o argumento, mas olha que a rapaziada está sentindo a falta de um nhoque com calabresa cortada grosseiramente, um ravioli pesadão, um molho branco com densidade de massa corrida e um potinho de parmesão vagabundo.
Deve haver um limite para a contemporaneidade. No passado, mesmo os shopping centers acolhiam o anacronismo. Lembro de unidades do Baked Potato que já eram carcomidas no início dos anos 1990. Hoje é tudo novo e cintilante, com ilustrações feitas por inteligência artificial e parede de vegetação de plástico com letreiro néon.
Eu quero o lápis na orelha do quitandeiro!


